sábado, 19 de março de 2016

O Morcego Negro


Se você se deparou com este encadernado acima nas bancas e pensou (assim como eu) que simplesmente se tratava da história de um personagem baseado no Batman, quase como uma cópia do Homem-Morcego, você (assim como eu) se enganou redondamente. Minha motivação ao compra-lo foi totalmente voltada para o fato de que sou um entusiasta dos personagens da Era de Ouro (1938-1956) dos quadrinhos, e o Morcego Negro é um personagem daquela época revitalizado neste encadernado pelo roteirista Brian Buccellato. A história é fantástica, visceral, "noir", violenta e trágica e, apesar de guardar algumas semelhanças com a do Homem-Morcego da DC, definitivamente é muito mais que isso. Nesta matéria veremos alguns pontos (sem spoilers) que me chamaram tanta atenção a ponto de me motivar a escrever sobre ele indicando-o aqui.

Capa de Revista Pulp trazendo O Morcego Negro nos anos 40

Em primeiro lugar eu diria que Buccellato conseguiu levar o Morcego Negro à lugares que nenhum roteirista já levou o Batman. Provavelmente porque fazer isso mexeria com as bases canônicas do personagem. Aqui está o 1º ponto fantástico da história, o autor encaminha o herói (que é quase um anti-herói) numa espiral de violência, conspirações e mentiras que quase o leva à desistir de sua cruzada contra o submundo. Com uma origem trágica, Anthony Quinn (o Morcego Negro) também baseia suas motivações em função de sua busca por uma expiação que nunca virá em relação ao pai. 



Corroído por uma culpa e um passado moralmente duvidoso, Quinn busca uma redenção que parece cada vez mais longe a cada passo que dá. Como que num pesadelo dentro de outro pesadelo, ele vai descobrindo que a sujeira é muito maior do que aquela contra a qual ele inicialmente se propôs a lutar. A história se passa em nosso tempo, e Buccellato consegue fazer coisas que há muito tempo eu não via um roteirista fazer comigo, ou seja, me surpreender ao virar uma página. 


O Morcego Negro não possui nenhum poder sobrenatural, exceto pelo fato de que seus olhos foram arrancados como herança de seu envolvimento prévio com a máfia. Sua única habilidade sobre-humana seria a implantação de olhos "biônicos", o que lhe confere certas especificidades visuais, tais como, enxergar no escuro, diferenciar organismos vivos (animais ou pessoas) através de paredes pelo padrão de calor e luz que o corpo emite, além é claro de poder desligar todas essas habilidades ao simplesmente desabilitar seus olhos, tornando-se um deficiente visual comum. Afora essa questão visual, Tony Quinn foi treinado em artes marciais, possui excelentes reflexos e atira muito bem,


Tudo isso faz com que o Morcego Negro se encaixe no perfil tradicional de personagens do tipo "Justiceiros" ou "Vigilantes", sejam eles heróis ou anti-heróis, que lidam com a marginalidade comum e por isso suas histórias são tão ou mais violentas que outras ligadas à universos cósmicos ou sobrenaturalis das editoras. Fiquei extremamente surpreso com a capacidade de Buccellato contar a história de maneira crível, construindo personagens realmente reconhecíveis em nosso mundo. Além disso, o roteiro é muito bem construído e não deixa pontas soltas.


A impressão que me deu ao ler o encadernado é que o roteirista é um fã do Batman que sempre quis que ele vivenciasse coisas mais reais e cruas a ponto disso mudar seu destino como herói, algo que nunca poderia acontecer, já que isso comprometeria seus pilares mitológicos. Assim, o Morcego Negro é levado à cantos escuros e sórdidos de uma corrupta cidade, mas o mais importante, essas incursões vão modificando-o também, ou seja, não apenas ele deixa sua marca na cidade, mas ela também o afeta.

 

O encadernado "O Morcego Negro" faz parte da iniciativa do selo Dynamite, que lá fora vem lançando releituras de personagens da Era de Ouro dos Quadrinhos e da Era dos Pulps (período que antecedeu a Era de Ouro). Estão nesta iniciativa O Fantasma, O Besouro Verde, Zorro, O Sombra, O Aranha entre outros. A maioria destes encadernados trazem arte conceitual de capas do famoso Alex Ross. Especificamente O Morcego Negro não traz as capas de Ross, mas isso não importa. A arte de Ronan Cliquet não é o tipo de arte que eu gosto muito, mas não compromete de maneira nenhuma a história. Às vezes até faz o contrário, a valoriza, sobretudo no contexto "noir" que a história possui. No Brasil essas histórias tem saído pela Editora Mythos.


Bom amigos... Esta é minha dica! Uma história que me surpreendeu positivamente e que gostaria que outros lessem e compartilhassem suas opiniões a respeito. Um grande abraço à todos!!

sábado, 12 de março de 2016

Superman - O Homem de Aço - Coleção de Graphic Novels Eaglemoss Nº 08


Olá amigos... A Coleção de Graphic Novels da Eaglemoss tem avançado no Brasil tal qual suas contrapartes da Marvel da Editora Salvat (Capa Preta e Vermelha). Muito material clássico e importante tem saído dentro destas coleções e é difícil acompanhar e ler tudo. O Nº 08 da Coleção da Eaglemoss trouxe à nós nada menos que a releitura que o grande John Byrne fez do Homem de Aço em meados dos anos 80. Quem leu a HQ "O Que Aconteceu ao Homem de Aço" de Alan Moore (roteiro) e Curt Swan (desenhos), lançada pela Panini há alguns anos, tem em mãos o fim de uma Era de histórias do Superman que encerrava ali seu ciclo (em 1985) pré Crise nas Infinitas Terras. Na sequencia John Byrne seria contratado para apresentar o novo herói à uma legião de fãs que queria saber como seria essa nova leitura do Último Filho de Krypton. Portanto, essas duas HQs ("O Que Aconteceu ao Homem de Aço" de Alan Moore e "Superman: O Homem de Aço" de John Byrne) são nada mais nada menos que o fim e o início de uma das mais belas histórias dos tempos modernos, respectivamente, contadas por dois gênios da 9ª Arte.

O Homem de Aço Nº 01

O mundo dos quadrinhos na DC pós Crise nas Infinitas Terras foi um dos mais frutíferos, criativos e mágicos até hoje. Novos talentos da indústria dos quadrinhos foram contratados e releituras foram feitas de personagens antológicos. Podemos citar: Monstro do Pântano (Alan Moore), Batman (Frank Miller), Homem Animal (Grant Morrison), Sandman (Neil Gaiman), Mulher-Maravilha (George Perez) e no caso do Superman o não menos talentoso John Byrne. É, portanto exatamente esse material que temos nas mãos aqui no Nº 08 da Coleção da Eaglemoss: a releitura, o renascimento do mito do 1º Super-herói dos quadrinhos. Lançada inicialmente como minissérie, esse arco nasceu clássico ao reapresentar um Superman mais enxuto em sua mitologia. Falaremos um pouquinho desse arco abaixo.

O Homem de Aço Nº 02

John Byrne já era conhecido quando foi chamado para este projeto e já havia sido reconhecido por seu trabalho nos X-Men na década de 70. Conhecido não apenas pelos seus roteiros, sua marca mais reconhecida talvez seja seu inconfundível traço. Em minha infância eu conhecia seus desenhos nas aventuras dos X-Men publicadas em Superaventuras Marvel pela Abril nos anos 80. Dono de um estilo preciso, mais enxuto e com uma maneira toda peculiar de apresentar expressões e faces dos personagens, Byrne era para mim uma lenda naquela época. Uma época em que começávamos a ver desenhos mais rebuscados, metafóricos e que para mim eram sinônimo de amadorismo (rs rs rs). Até hoje, no entanto John Byrne encabeça a lista de meus desenhistas preferidos.

O Homem de Aço Nº 03

Byrne redefine um Superman não tão onipotente, e já sinaliza logo nas primeiras páginas a possibilidade de alguns limites para seus poderes. Mas talvez algo que tenha mais me chamado atenção seja a importância que o autor dá para a formação da personalidade de Clark Kent em seu primeiros anos. Há toda uma preocupação de se apresentar um personagem crível e forjado dentro do ambiente social terrestre, com suas decepções, alegrias, fracassos e sacrifícios pessoais. Explora-se um passado mais normal de um Clark Kent que teve pais presentes e que lhe deram uma sólida base moral e ética. Algo que pudemos ver muito bem na última leitura do Superman para o cinema com Henry Cavil.

O Homem de Aço Nº 04

Louis Lane não poderia ser mais atrevida, sensual e independente, e Byrne consegue dar um tom de atração física perfeito entre o casal. Algo que chega a transbordar das páginas. A consciência do herói em relação à sua origem não é logo apresentada e ele permanece no escuro em relação a quem ele é exatamente, de onde vem seus poderes e porque ele possui esses dons. Isso abre espaço para reações não tão costumeiramente presentes na personalidade do Superman. Inseguranças, questionamentos e indecisões são frequentemente vistas, como que a demonstrar o desenvolvimento progressivo de sua personalidade.

O Homem de Aço Nº 05

Uma das partes mais interessantes do arco é o 1º encontro entre Superman e Batman. O autor faz questão de apresentar logo de início a discordância de métodos que os dois heróis usam. Algo também que servirá de base para o próximo filme da DC "Batman vs Superman". Apesar disso o respeito entre os dois começa aos poucos a se insinuar na história, crescendo aos olhos do leitor o respeito por esses dois ícones. Muito interessante é o subterfúgio que Batman usa para conter a vontade do Superman em prendê-lo. Algo que não vou contar para não dar spoiler. Mas vale muito a pena conferir.

O Homem de Aço Nº 06

Outro ponto bem costurado é o encontro e o relacionamento que se estabelece entre Superman e Lex Luthor, este último apresentado como um Magnata/Homem de Negócios sem escrúpulos. Muito diferente da abordagem que se tinha em relação a ele antes disso, na qual Luthor aparecia mais como cientista louco. Essa abordagem, aliás, dada por Byrne, seria aquela que redefiniria definitivamente o vilão Lex Luthor. Um perfil que expressa muito mais sua natureza predatória (de pessoas e recursos naturais) que a anteriormente empregada que servia à visão mais "non-sense" imposta pelo Authority Code nos quadrinhos dos anos 60 e 70.


Se você quer conhecer uma releitura inteligente, fiel à essência do personagem, cativante em sua arte e clássica, você deve ler essa HQ. Especificamente neste volume da Eaglemoss é apresentado também uma pérola: a 1ª aparição do Superman em Action Comics Nº 01 de 1938. Particularmente eu ainda não havia lido essa 1ª história original do Homem de Aço diretamente das mãos de Jerry Siegel e Joe Shuster, seus criadores. Surpreendentemente Superman é apresentado de forma bem adulta para o que eu esperava. Sem muito remorso ou escrúpulo ele era um herói de moral pouco flexível e que, por conta disso, distribuía sopapos facilmente, machucando pessoas com muita facilidade. Uma surpresa interessante e de valor histórico inestimável.


É isso aí amigos... Um grande abraço à todos. Essa foi minha impressão da HQ e minha dica!!
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