segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Visão de Formiga...

Caso pudesse retornar no tempo, eu gostaria de fazer algumas escolhas diferentes. Dentre elas eu tomaria algumas decisões para ser alguém mais perecido com meu irmão, Murilo. Alguém forte, externamente e internamente; com uma profundidade simples; alguém que vive da e na terra; com raízes fortes e profundas, tão profundas que lhe proporcionam firmeza nas decisões, como um carvalho; possuidor daquela sabedoria que interessa, não aquela sabedoria inóqua e asséptica dos corredores do academicismo, mas aquela sabedoria que só aqueles que vivem rodeados pela simples complexidade da natureza são capazes de desenvolver. Aprendo muitas coisas com ele. Principalmente quando o acompanho em seu trabalho pela fazenda. Certa vez  acompanhando-o por entre as florestas de eucapliptos da fazenda ele me falou das formigas "cabeça-de-limão". 

Pequenas, vorazes e eficientes em sua existência, tais formigas são a linha de frente da resistência da natureza ante a ganância pelo poder financeiro do homem. Meu irmão as combate, pois a presença de tais formigas impede os Eucaliptos de crescerem satisfatoriamente. Porém ele trava essa luta contra elas não com desprezo ou displicência, mas com profundo respeito! Pois sabe que esses pequenos animaizinhos são na verdade soldados que lutam e nos trazem um recado das entranhas da existência. Que é preciso ter um limite para nossa ganância... que é preciso ter respeito pela criação... que é preciso aprender que não somos tão intocáveis quanto achamos. Nesse combate percebi o respeito com que ele trata a criação. Desde então comecei a observar mais de perto as formigas. Outro dia tentei verificar se encontrava alguma diferença entre elas. Não na forma ou função dentro do formigueiro, mas diferenças que fizessem algumas mais ou menos desfavorecidas em relação às outras. Porém não consegui perceber qualquer diferença entre elas, embora eu tenha certeza que existam. Algumas devem ser um pouco mais fortes que outras. Algumas devem conseguir realizar seu trabalho mais rápido enquanto outras talvez o façam mais demoradamente. 
Fiquei pensando... Se Deus realmente é tão grande quanto tantos ficam dizendo por aí, talvez a visão Dele em relação a gente fosse a mesma da nossa em relação às formigas! Ou seja... todos os títulos, vantagens e qualidades que achamos que temos em relação aos menos favorecidos (diferenças essas ao nosso favor e que nos enchem de orgulho e vaidade) talvez sejam, literalmente sem sentido para Ele, tendo em vista Seu tamanho. Em meu trabalho já me deparei, por exemplo, com pessoas portadoras de sérios comprometimentos cognitivos e motores (crianças vitimadas de paralisia cerebral, adultos vítimas de derrame cerebral que perderam completamente sua autonomia, indivíduos com uma função cardíaca ou pulmonar extremamente limitada). Lembro-me de inúmeras vezes me sentir em vantagem em relação à eles. Lembro-me também de me sentir hora em vantagem, hora em desvantagem em relação à outros que eventualmente executam meu trabalho de forma diferente de mim (às vezes melhor, às vezes pior). Fiquei imaginando que talvez para Deus isso seja tão irrelevante ou sem importância quanto a minha análise do desempenho individual de cada formiga. No fim não haveria tanta diferença entre eu e uma criança que nunca foi capaz de se comunicar na vida, ou entre eu e alguém que está em coma ou limitado à uma cama por um problema cardio-pulmonar. Seriamos tão pequenos (tão formigas) que tais diferenças seriam sem sentido sob uma ótica eterna, perene e gigantesca. Seríamos mesmo todos pequenos,  carentes e necessitados de uma Presença maior. Não é que talvez sejam as pequeninas formigas as mais felizes então! Vivendo simplesmente seu dom pessoal para Àquele que as criou!!
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